Bom, para início de papo, vamos a algumas comparações sobre as tramas de Manoel Carlos, um dos mais conceituados e realistas dramaturgos da televisão brasileira.
Maneco, como é chamado pelos íntimos, escreveu ao longo de sua carreira, inúmeros sucessos, entre eles “Baila Comigo”, “História de Amor”, “Por Amor”, “Laços de Família”, “Mulheres Apaixonadas” e “Páginas da Vida”, isso só para citar alguns. Todas as tramas com um choque polemizado enorme e grande apelo do público para casos de merchandising social. Ou seja, emoção à vista.
Mas agora, entre todas as Helenas que ele já escreveu, entre todas as páginas de suas histórias, ao meio a tantas mulheres apaixonadas e homens embevecidos com essas mulheres apaixonadas, porque aquela que tinha tudo para ser outro grande sucesso, tornou-se o fracasso nacional do horário das oito?

As explicações só parecem óbvias, mas não são. Primeiramente, já estamos cansados de saber que a internet e a audiência em crescimento de outras emissoras contribuiu de fato para a queda do ibope da novela. E dizem que quando novela cria barriga, fica complicado de reverter a situação. Pois eu discordo de alguns desses pontos.
O fracasso atual que atende pelo nome de “Viver a Vida” é uma história com ótimos personagens, diálogos dos melhores já vistos e temas ainda inexplorados dessa forma tão instigante. É o caso da tetraplegia de Luciana, personagem de Alinne Moraes.
Mas para começar, porque o nome “Viver a Vida”? Uma total falta de criatividade, como se tivessem emendado um nome de última hora para a novela ter um slogan próprio.
Segundo. O que significa aquele descanso de tela que chama-se abertura da novela? O esquema das cores se modificando num prisma é bacana, mas aquele branco de pano de fundo dá vontade de fechar os olhos e nunca mais os abrir. Dá sono.
E alguns personagens, como a ótima Débora Nascimento e os núcleos da Marta, que tem câncer na novela, são pouco explorados. Acho que quando se cria uma novela, deve-se pensar em cada personagem com carinho e não se apegar a certos por causa da história que está empolgando. Pode ser que aqueles personagens esquecidos, aqueles do fundo do baú, mostrem uma história muito mais interessante do que o choro contínuo da Luciana ou a amargura sem fim de Tereza, da Lília Cabral.
Destaco também que, Manoel Carlos, devia pensar que está lidando com atores profissionais e não com marionetes que recebem texto em plena balada de sábado. O autor é dos mais respeitáveis, mas só porque ele prefere ver o resultado do capítulo no ar antes de ir escrever o próximo, isso é correto com os atores que interpretam?
E certos capítulos se resumem numa cena inteira de flashback ao invés de uma emoção maior de um reencontro, uma briga, um acidente, um tapa na cara. O fim da maioria dos capítulos acaba com um abraço, ou um “tchau amiga” ao contrário de um empolgante “sua vagabunda, vou arrancar todos os seus dentes” ou um “socorro, fui sequestrado”.
Manoel Carlos é inteiramente responsável por todos os fracassos de sua novela e deveria repensar suas cenas de café da manhã tranquilo ou tramas centradas num só núcleo. O que falta é empolgação, revelações surpreendentes – e olhe que estas não faltam – e maior desenvolvimento das vilanias de Klara Castanho, com aquele seu olhar pérfido e inocente ao mesmo tempo. Atitudes repensadas podem dar um melhor resultado, antes que seja tarde demais.
Mas ops, já é tarde demais. “Viver a Vida” já não se escapa de se tornar o pior ibope do horário das oito. É uma pena, pois Taís Araújo merecia realizar o sonho de viver sua Helena de forma mais maravilhosa.